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19 de fevereiro 2018

Vale quer assumir as operações da Samarco

A Vale prefere ser a operadora da Samarco, mineradora cujo controle divide com a anglo-australiana BHP, quando a empresa retomar suas operações. Ontem, o diretor de relações com investidores da Vale, André Figueiredo, disse que um plano de longo prazo para a produtora de pelotas de ferro seria melhor tocado pela gigante brasileira, principalmente no que diz respeito ao cuidado com os rejeitos da operação.

Segundo o executivo, há pelo menos um ano a empresa conversa com sua sócia a respeito do assunto. Ele não confirmou se efetivamente o que se busca é comprar a fatia da BHP, nem quanto pagaria pela transação, mas classificou a Vale como uma espécie de "dona natural" do negócio por conta de sua atuação na região.

Em 5 de novembro de 2015, a barragem de Fundão, da Samarco, em Mariana (MG), se rompeu e causou uma tragédia ambiental, levando 19 pessoas à morte.
Por ter infraestrutura de mineração próxima da Samarco, a brasileira é vista como candidata natural para a gestão
O que a Vale busca, acrescentou Figueiredo, é um plano que permita à Samarco operar no longo prazo. "A estratégia atual, de voltar a operar com mina exaurida funcionando como cava para armazenar os rejeitos, pode durar no máximo dois anos", lembrou.
Além dessa cava, Alegria Sul, envolvida na negociação com autoridades para retomada da Samarco, a Vale tem a posse de outras minas próximas, em fim de vida ou já exauridas, que poderiam ser usadas por mais tempo para receber os rejeitos. Ele ser improvável que uma barragem, como antes, seja autorizada.
Especialistas, e até interlocutores da própria BHP, admitem que a Vale, por deter uma infraestrutura de mineração próxima da mina da Samarco, é vista como a candidata a assumir a gestão das operações da controlada.
No início do mês, a agência de notícias "Bloomberg" informou, citando fontes não identificadas, que a Vale buscava ficar com o controle da pelotizadora. E informou nesta semana que a BHP pede US$ 1 bilhão por usa fatia.
O diretor da Vale ainda revelou que o acidente em Minas ensinou uma lição, de que é complicado emprestar seu nome a um empreendimento sem operá-lo. Para o executivo, dificilmente uma "joint venture" assim será repetida no futuro se a operação não for da Vale.
O encontro com analistas e investidores também serviu para reiterar as metas com o novo comando executivo, de Fabio Schvartsman, que estabeleceu quatro "pilares" de atuação. No lado operacional, a gestão de custos e a política de formação de preços das commodities. Com isso e a qualidade do S11D (mina em Carajás), apenas em ferrosos o ganho potencial de Ebitda até 2020 vai de US$ 1,2 bilhão a US$ 2 bilhões.
A Vale também voltou a declarar seu comprometimento com a disciplina de oferta. "Somos a maior e temos o melhor produto do mundo, então vamos ter essa disciplina", garantiu Figueiredo. "Mas desde que outras mineradoras não comecem a investir para expandir. Não precisamos de mais minério no mundo."
No pior dos cenários apresentados, com minério a US$ 55 a tonelada e níquel a US$ 10.000, o fluxo de caixa livre ainda assim ficaria acumulado em US$ 13 bilhões durante dois anos. Em cenários mais otimistas, com o minério a US$ 65 e o níquel a US$ 14.000, a conta é de US$ 25 bilhões.
Esses cálculos mostram que a mineradora alcançou uma parte de seu objetivo, de reduzir o endividamento até um patamar que a deixasse confortável em "qualquer preço" das matérias-primas. A companhia quer fechar 2018 com dívida líquida de US$ 10 bilhões - no fim de setembro estava em US$ 21,1 bilhões - e, a depender das cotações, pode alcançar a meta antes de dezembro. "Nossa prioridade agora é continuar a desalavancagem e remunerar melhor o acionista", comentou Figueiredo.
Essa reavaliação, disse, já começou. Com a empresa no Novo Mercado e o lado financeiro controlado, os investidores já estão reduzindo o desconto com que a Vale é negociada em bolsa ante suas pares mundiais. Até agora, no ano, por exemplo, o minério de ferro sobe 2%. Ação da Vale, no entanto, avança 7%.
Fonte: Valor